Nota 5,50 e um indicador zerado: o que está acontecendo na ESF São José?
Os relatórios da saúde apresentados na audiência pública da Câmara mostram a equipe do São José com a menor pontuação do município no período de maio a agosto. O indicador de desenvolvimento infantil aparece zerado nos quatro meses. O resultado é preliminar.
A audiência pública realizada na Câmara Municipal trouxe os relatórios financeiros e operacionais da saúde referentes ao segundo quadrimestre de 2026, o período de maio a agosto. Boa parte da apresentação seguiu o roteiro de sempre, com números de atendimento e de gasto. Mas um dado destoou dos outros e merece ser olhado com calma.
A equipe da ESF São José fechou o quadrimestre com nota 5,50. Enquanto isso, outras equipes do município apareceram com notas acima de 9, segundo os dados apresentados na audiência. É uma diferença grande demais para passar batida.
De onde vem essa nota
A pontuação não é opinião de ninguém nem avaliação feita pela Prefeitura. Ela vem de sete indicadores que o Ministério da Saúde usa para avaliar as equipes de Saúde da Família em todo o país, e que fazem parte do cofinanciamento federal da atenção primária. Ou seja: é a régua que mede o trabalho da equipe e que também tem relação com o repasse que chega para a saúde do município.
Cada indicador recebe um conceito, que vai de Regular a Ótimo, e vale uma pontuação. A soma dos sete forma a nota final.
Indicador por indicador
Mais Acesso: 43,8%, conceito Bom, 0,75 de 1,0 ponto.
Desenvolvimento Infantil: 0,0%, conceito Regular, 0,5 de 2,0 pontos.
Gestação e Puerpério: 61,3%, conceito Bom, 1,5 de 2,0 pontos.
Pessoa com Diabetes: 53,1%, conceito Bom, 0,75 de 1,0 ponto.
Pessoa com Hipertensão: 48,4%, conceito Suficiente, 0,5 de 1,0 ponto.
Pessoa Idosa: 38,3%, conceito Suficiente, 0,5 de 1,0 ponto.
Prevenção do Câncer: 43,9%, conceito Suficiente, 1,0 de 2,0 pontos.
O zero que chama atenção
O indicador de Desenvolvimento Infantil acompanha o cuidado com as crianças nos dois primeiros anos de vida, o que inclui vacinação em dia, consultas de acompanhamento e visitas da equipe. No painel da ESF São José, ele aparece em 0,0% nos quatro meses do quadrimestre, sem nenhuma variação de maio a agosto.
Esse indicador é um dos que mais valem ponto, até 2,0, e a equipe ficou com 0,5. Sozinho, ele responde por boa parte da distância entre o 5,50 e as notas das outras equipes.
Zero por quatro meses seguidos costuma apontar para uma de duas situações. Ou o acompanhamento não está acontecendo, e aí há crianças pequenas do bairro sem o cuidado que deveriam estar recebendo. Ou o acompanhamento acontece e não chega ao sistema, e aí o problema é de registro. As duas hipóteses são sérias, e as duas precisam de resposta.
O que está indo bem
Também é justo dizer o outro lado, porque nota baixa não significa que nada funcione. Gestação e puerpério é o melhor indicador da equipe, com 61,3%, e ficou com 1,5 dos 2,0 pontos possíveis. E, olhando os gráficos mês a mês, vários indicadores vêm subindo ao longo do quadrimestre, como hipertensão, pessoa idosa e prevenção do câncer.
O problema é o patamar de onde essa subida parte. Mesmo melhorando, a maioria dos indicadores ainda está abaixo da metade.
As perguntas que precisam de resposta
Aqui vale deixar uma coisa clara: nota de equipe não é julgamento de profissional. Quem trabalha na ponta, na maioria das vezes, está lidando com o que tem. Por isso mesmo, o caminho não é procurar culpado, e sim entender o que está travando.
A equipe está completa, com médico, enfermeiro e agentes comunitários? Houve troca de profissional no período, o que costuma derrubar indicador? O registro dos atendimentos no sistema está sendo feito e enviado corretamente? O território atendido pela equipe tem alguma particularidade, como número maior de casas ou dificuldade de acesso? A equipe recebeu apoio para corrigir o que estava caindo, já que o quadrimestre anterior deve ter mostrado sinais?
Essas respostas quem tem é o Departamento Municipal de Saúde, e é para lá que essas perguntas precisam ir. A reportagem vai atrás.
O que o painel diz, e o que ele não resolve
É preciso registrar duas coisas que aparecem no próprio material apresentado. A primeira é que o painel traz, em destaque, o aviso de que se trata de resultado preliminar, sujeito à validação, ou seja, os números ainda podem mudar depois da checagem oficial. A segunda é que, ao lado do 5,50, o sistema exibe a classificação Bom.
Essa classificação vem de uma régua nacional, que vale igual para equipe de capital e para equipe de cidade pequena. Ela diz que a nota não é das piores do país. Só que a comparação que interessa a quem mora aqui é outra: dentro do próprio município, com as mesmas regras, o mesmo sistema e a mesma gestão, essa é a menor nota apresentada, enquanto outras equipes passaram de 9. Rótulo bom na tabela não muda o fato de que uma equipe ficou muito atrás das vizinhas.
A informação já foi apresentada em sessão pública, diante dos vereadores, e é sobre ela que a discussão acontece agora. Quem é atendido na ESF São José tem o direito de saber o que está por trás desse número e o que vai ser feito para mudá-lo.
E fica o combinado, por escrito: na apresentação do próximo quadrimestre, a gente vai estar lá conferindo. A expectativa é ver esse número subir, principalmente o indicador que hoje está zerado, porque por trás dele tem criança pequena do bairro.
Fonte: Audiência pública na Câmara Municipal de Álvares Machado