Nosso país proibiu as bets, e aqui as consultas de psicologia já tinham disparado
Os atendimentos de psicologia em Álvares Machado vinham estáveis, em torno de 1.400 por quadrimestre, e saltaram para 2.087 entre maio e agosto. Com o fim abrupto das plataformas, a procura tende a crescer, e não a cair.
As bets acabaram no Brasil. O governo federal editou a medida provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e também a publicidade de apostas e cassinos online. Não dá mais para depositar nem apostar, e as plataformas têm data marcada para sair do ar.
Só que essa notícia não começa no anúncio. Ela começa alguns anos atrás, quando a aposta entrou no celular de todo mundo, virou propaganda no intervalo do jogo e passou a ser tratada como brincadeira. O que ficou desse período está em números, e alguns deles são de Álvares Machado.
O que o país já sabia
Entre 2018 e 2025, os atendimentos no SUS relacionados a jogo patológico cresceram cerca de 140%, segundo dados apresentados pelo próprio governo federal ao anunciar a proibição. Não é uma variação pequena nem um detalhe de estatística: é a curva de um problema de saúde pública se formando à vista de todos.
Um estudo citado na mesma ocasião estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social do jogo no Brasil. Desse total, R$ 30,6 bilhões, quase 79%, estão ligados à saúde, incluindo tratamento de depressão e casos de suicídio. O governo afirma ainda que mais de R$ 60 bilhões foram retirados da economia real das famílias brasileiras por causa do mercado de apostas.
O reflexo em Álvares Machado
Nos relatórios apresentados nas audiências públicas da Câmara Municipal, dá para acompanhar quantas consultas de psicologia a rede de Machado realizou a cada quadrimestre. E o desenho que aparece é este:
**1º quadrimestre de 2025:** 1.418 consultas.
**3º quadrimestre de 2025:** 1.452 consultas.
**1º quadrimestre de 2026:** 1.306 consultas.
**2º quadrimestre de 2026, de maio a agosto:** 2.087 consultas.
Três períodos num patamar parecido, todos em torno de 1.400, e então um salto. São quase 700 atendimentos a mais do que a média dos anteriores, um crescimento de cerca de 50% de uma vez.
O que esse número diz, e o que ele não diz
Vamos ser honestos com quem lê: com esses dados, ninguém pode cravar o motivo do salto. Pode ter entrado mais profissional na rede, pode ter melhorado o acesso, pode ser uma soma de fatores. A gente não vai transformar coincidência em causa só porque a manchete fica melhor.
Mas dois registros são justos. O primeiro: o período avaliado vai de maio a agosto, ou seja, termina antes do Setembro Amarelo, então a campanha deste mês não explica o aumento. O segundo: esse salto acontece exatamente no mesmo período em que o país inteiro discute o que as apostas fizeram com a saúde mental das pessoas.
Fica o número na mesa e fica a pergunta. Quem tem condição de responder é o Departamento Municipal de Saúde, que acompanha esses atendimentos de perto e sabe o que as equipes estão ouvindo nas consultas.
Não é estatística, é gente que você conhece
Aqui o assunto encosta na porta de casa. É o vizinho que sumiu do churrasco e ninguém entendeu por quê. É o colega de trabalho que pediu emprestado de novo, com uma desculpa diferente. É a mãe que descobriu o limite do cartão estourado e não teve coragem de contar. É o pai que começou apostando o troco e terminou apostando o aluguel.
Quem cai nisso raramente conta. Dívida de aposta vem com vergonha embrulhada junto, e a pessoa vai afundando calada, tentando recuperar no giro seguinte o que perdeu no anterior. Quando a família descobre, o buraco já é fundo, e às vezes já levou junto o carro, a reserva ou a casa.
Sobre o suicídio, sem rodeio
Ao anunciar a medida, o governo falou abertamente em endividamento, angústia, vergonha e casos de suicídio ligados às apostas.
Esse é um assunto que o Brasil subnotifica por padrão. Muita morte entra na estatística como causa indeterminada, e muita família, por dor ou por medo do julgamento, prefere não falar sobre o que aconteceu. O resultado é que o número oficial sempre fica abaixo da realidade.
Só que em Machado não precisa de estatística nacional para entender do que se trata. Em cidade do nosso tamanho, a gente conhece nome, conhece rosto, conhece a rua e conhece a casa que ficou em silêncio. Cada uma dessas perdas atravessa uma família inteira, uma turma de escola, um grupo de trabalho, e continua doendo em quem fica muito tempo depois.
Setembro Amarelo nos postos e nas escolas Cuidar da mente também é cuidar de siAcabou a bet, não acabou o problema
Aqui está a parte que quase ninguém comentou nesta semana, e talvez seja a mais importante para Álvares Machado.
O transtorno do jogo é reconhecido como dependência, do mesmo jeito que outras adições. Entre os critérios usados para diagnosticar esse transtorno está justamente a irritabilidade e a inquietação de quem tenta parar ou reduzir. Ou seja, parar não é só decidir parar. Quando a interrupção vem de uma vez, como agora, é esperado que muita gente passe por um período de abstinência, com ansiedade, irritação, insônia e dificuldade de lidar com o impulso.
Some a isso o outro lado da conta: a plataforma fecha, mas a dívida que ela criou continua lá, com o nome sujo, o cartão estourado e o empréstimo para pagar.
Por isso a proibição não deve reduzir a procura por atendimento psicológico nos próximos meses. O mais provável é o contrário. Quem estava apostando para não pensar no tamanho do problema vai ter que encarar o problema sem a aposta, e muita gente vai precisar de ajuda para atravessar isso.
A nossa estrutura está pronta?
Essa é a pergunta que a gente precisa fazer agora, e não daqui a seis meses. Se as consultas de psicologia já saltaram cerca de 50% num quadrimestre, e se a tendência é a procura crescer ainda mais com a ruptura, a rede municipal precisa estar preparada para receber essas pessoas sem fila de meses.
Isso significa profissional suficiente, agenda que absorva o aumento, acolhimento nas unidades de bairro e caminho claro de encaminhamento para quem chega pedindo ajuda. Vale lembrar que a mesma audiência que trouxe esses números mostrou também uma equipe de saúde da família bem abaixo das outras nos indicadores, o que indica que a rede não está igual em todos os cantos de Machado.
A nota 5,50 da ESF São JoséOnde buscar ajuda
Se você está afundado em dívida de aposta, ou conhece alguém nessa situação, existe saída e existe tratamento. Procurar ajuda não é fraqueza nem exposição: é o caminho mais curto para parar de perder.
O CVV, Centro de Valorização da Vida, atende de graça, 24 horas por dia, todos os dias, pelo telefone 188 e por chat no site cvv.org.br. O atendimento é sigiloso e feito por voluntários preparados para ouvir, sem julgamento. Procure também a ESF do seu bairro, onde a equipe faz o acolhimento e encaminha para o atendimento adequado. Em caso de emergência, ligue 192.
E uma palavra sobre quem divulgou
Não foi só celebridade de rede nacional. Gente de Álvares Machado, com perfil pequeno, também postou link de cadastro, cupom e print de ganho, daqueles de entrei com cinquenta e saí com quinhentos.
A gente não vai citar nome, e não é por medo. É porque foi muita gente, e boa parte não fazia ideia do tamanho do estrago que ajudava a espalhar. Mas fica o registro, porque registro também é jornalismo: ganhar comissão em cima do vizinho endividado foi uma escolha.
E agora mudou de patamar. A medida provisória proibiu expressamente a publicidade de aposta. Quem continuar divulgando não está mais numa zona cinzenta de ética, está descumprindo a regra.
Serviço: o dinheiro que ficou lá
Quem tem saldo parado em alguma plataforma precisa resolver isso agora, porque existe prazo. O governo estima que cerca de R$ 1,7 bilhão esteja nessas contas e tenha de ser devolvido.
**Até 5 de outubro, às 23h59:** prazo para você mesmo entrar na plataforma e sacar o saldo.
**6 de outubro:** sites e aplicativos saem do ar e passam a ser bloqueados no país.
**7 e 8 de outubro:** as empresas informam aos bancos quanto sobrou na conta de cada apostador, com os valores vinculados ao CPF.
**9 a 14 de outubro:** os bancos devolvem o dinheiro.
**Depois de 14 de outubro:** a Caixa Econômica Federal fica responsável pelos pagamentos que não conseguirem ser entregues.
Quem perder o prazo do saque não perde o dinheiro, mas passa a depender do caminho mais demorado. Se der para resolver agora, resolva agora.
Cuidado com o golpe
Sempre que sai uma medida assim, aparece golpista atrás. O governo informou que vai notificar os apostadores pela caixa postal do gov.br e por WhatsApp, com as orientações para recuperar os valores.
Guarde esta regra: ninguém vai pedir sua senha, um código recebido por mensagem ou o pagamento de qualquer taxa para liberar o saque. Se alguém pedir, por mensagem, ligação ou link, é golpe. Não clique e não passe dado nenhum.
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Fonte: Relatórios apresentados na Câmara Municipal e medida provisória do governo federal