Vão cobrar para estacionar no centro? A conta que precisa ser feita antes
Requerimento do vereador Marquinhos Bozó pede estudo sobre estacionamento rotativo. Antes de cobrar pela vaga, a cidade precisa responder sobre custo, fiscalização e impacto no comércio.
A discussão sobre cobrar pelo estacionamento no centro de Álvares Machado chegou à Câmara. Em requerimento apresentado no dia 12 de agosto, o vereador Marquinhos Bozó pediu que o prefeito informe se há possibilidade de implantar o sistema de estacionamento rotativo — a Área Azul — na região central, e se existe previsão de estudos.
Na justificativa, o vereador argumenta que a medida poderia aumentar a rotatividade das vagas, facilitar o acesso ao comércio e organizar o estacionamento nas vias públicas, citando a dificuldade de motoristas para encontrar vaga.
O pedido é legítimo e cumpre o papel do vereador: provocar o Executivo a estudar um tema. Mas, antes que a cidade caminhe para a cobrança, algumas contas precisam ser feitas.
Uma quadra é longe demais?
Comecemos pelo diagnóstico. É verdade que as vagas na via principal do centro vivem disputadas. Mas basta andar um quarteirão para o cenário mudar: ruas como a Vicente Dias Garcia e a Aristeu B. de Carvalho ficam a apenas uma quadra do miolo comercial e, na maior parte do tempo, têm vagas livres.
Vale a comparação: em Presidente Prudente, é rotina o motorista caminhar cinco, seis quadras até encontrar onde parar. Aqui, a pergunta que fica é se uma quadra de caminhada justifica criar um sistema pago para a cidade inteira.
Quem vende, quem fiscaliza — e quanto custa?
Área Azul não se implanta com placa na parede. Exige sistema de venda de créditos, rede de pontos credenciados, agentes fiscalizando as ruas todos os dias e uma estrutura de gestão. Em Presidente Prudente, por exemplo, o sistema é digital e conta com mais de cem estabelecimentos credenciados só para vender o crédito.
Em geral, esse serviço é entregue a uma empresa contratada, que fica com parte da arrecadação. Numa cidade do nosso porte, com uma área central enxuta, a pergunta é direta: a receita das vagas cobre o custo do sistema — ou o município acaba pagando para cobrar?
Se em Prudente muita gente não paga, aqui vai funcionar?
Este é o ponto mais concreto. Em Presidente Prudente, descumprir a Área Azul é infração grave: cinco pontos na carteira, multa de R$ 195,23 e previsão de remoção do veículo. Ou seja, existe estrutura e existe punição real.
Mesmo assim, o número de multas por descumprimento saltou de 274, em 2021, para 3.286 em 2022 — um salto de mais de dez vezes. O dado mostra o tamanho do desafio: mesmo em uma cidade grande, com fiscalização montada e pátio para remoção, milhares de motoristas simplesmente não pagam.
Daí a pergunta que Álvares Machado precisa responder antes de qualquer decisão: o município dispõe hoje da estrutura necessária — inclusive pátio para remoção de veículos — para fazer a regra valer? Porque um sistema sem capacidade real de fiscalização não organiza nada: apenas cobra de quem é cumpridor e é ignorado por quem não é.
O caminho que a cidade vizinha escolheu
Há um exemplo bem próximo de como conduzir esse debate. Em Pirapozinho, quando a implantação da Zona Azul foi levantada, a Prefeitura não decidiu sozinha: convocou audiência pública e abriu uma enquete no site do município para ouvir a população antes de qualquer definição.
É esse o caminho que defendemos aqui. Se o prefeito acatar o pedido e mandar fazer o estudo, que ele venha acompanhado de audiência pública com a população e, principalmente, com os comerciantes das ruas do centro — que são quem sente primeiro qualquer mudança no fluxo de clientes.
O debate é bem-vindo. A pressa, não.
Ninguém aqui é contra discutir a organização do trânsito no centro. O que não pode acontecer é importar um modelo pensado para centros urbanos grandes sem responder se ele faz sentido em uma cidade de 25 mil habitantes, onde a vaga livre está, quase sempre, a um quarteirão de distância.
Antes de decidir quanto custará a vaga, Álvares Machado precisa saber quanto custará o sistema, como ele será fiscalizado e qual será o impacto sobre quem vive do comércio no centro. E, acima de tudo, precisa ouvir quem vai pagar a conta.
O Notícias Machadenses acompanhará a resposta da Prefeitura ao requerimento.
Fonte: Câmara Municipal de Álvares Machado