Caminhão tomba e derrama 100 litros de diesel no retorno da melhor rodovia do Brasil; melhor para quem?
O tombamento aconteceu no dispositivo de retorno do km 573 da Raposo Tavares, em Álvares Machado, e espalhou ração e óleo diesel na pista. É o mesmo trecho eleito a melhor rodovia do país por dois anos seguidos, num ranking que mede o asfalto, e não o que acontece nos acessos.
Um caminhão tombou no dispositivo de retorno do km 573 da Rodovia Raposo Tavares (SP-270), em Álvares Machado, e espalhou pela pista a carga de ração de frango ensacada que transportava, além de cerca de 100 litros de óleo diesel vazados do próprio tanque.
O acidente aconteceu na noite de terça-feira (29), por volta das 19h20, no retorno do sentido leste. Estavam no veículo o motorista e mais duas pessoas, e os três saíram ilesos. Um segundo caminhão foi deslocado para o transbordo da carga, e a concessionária CART fez a limpeza do local. A carga se espalhou pelo canteiro lateral e parte da faixa de trânsito.
A rodovia campeã
E aqui vale juntar duas informações que costumam andar separadas.
Essa é a mesma rodovia eleita a melhor do Brasil na pesquisa CNT Rodovias. E não foi uma vez só: foram duas edições seguidas, a mais recente divulgada em dezembro de 2025. O trecho premiado tem 272 quilômetros, vai de Presidente Epitácio a Ourinhos e é administrado pela CART. Quem trafega pela região passa por placa anunciando o título.
Não é troféu inventado, e a rodovia tem méritos. O asfalto é bom, a sinalização é boa, a duplicação no trecho principal funciona. Quem já rodou por estrada esburacada em outros estados sabe a diferença.
Melhor para quem?
Só que vale olhar o que essa régua mede de verdade. A pesquisa da CNT avalia três coisas: pavimento, sinalização e geometria da via. É uma avaliação sobre o estado do asfalto e do traçado no trecho analisado.
Ela não mede quantos caminhões tombam num dispositivo de retorno. Não mede quanto óleo é derramado na pista. E, principalmente, não mede o que acontece nos acessos, que é justamente por onde a nossa cidade entra e sai dessa rodovia todo santo dia.
O título é do trecho principal. A conta, quem paga é quem usa a entrada.
O acesso que já matou
Antes de seguir, vale deixar uma coisa clara para ninguém confundir: o tombamento desta terça foi no dispositivo de retorno do km 573, e o caso que vem agora aconteceu em outro ponto, no acesso à cidade. Não é o mesmo lugar. É a mesma rodovia, a que corta Álvares Machado e que a gente usa todo dia para entrar e sair.
Em 10 de agosto deste ano, uma colisão frontal na SPA-576/270, a ligação com a Raposo Tavares, matou um homem de 53 anos e deixou outro, de 58, em estado grave. O motorista que morreu ficou preso nas ferragens.
Naquele dia, o trânsito precisou ser desviado pelas alças do acesso até quase 23h, enquanto perícia, limpeza e remoção dos veículos eram feitas. Atenderam Bombeiros, Polícia Militar, Polícia Rodoviária e equipes da própria CART.
Relembre a morte no acesso à cidadeE o acesso continua igual
Mais de um mês depois, nada mudou no trecho. Ele segue como sempre esteve: pista simples, sem acostamento, com carros e caminhões dividindo o mesmo espaço em sentidos opostos. É exatamente a configuração que torna possível uma colisão frontal, e é exatamente a configuração que transforma um pneu furado em risco de morte, porque não existe para onde encostar.
Em julho, esta reportagem já havia mostrado o contraste entre as duas entradas da cidade: enquanto a Estrada da Amizade recebe cuidado do município, o acesso pela Raposo segue no abandono.
Leia sobre o abandono da entrada da cidadeDe quem é a conta
Essa parte é importante para ninguém se perder na hora de cobrar. A Raposo Tavares é uma rodovia estadual. A duplicação e a criação de acostamento nesse acesso são responsabilidade do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Artesp, agência que regula as rodovias paulistas.
Em 2023, a concessionária CART já havia afirmado que a obra não está na alçada dela. Ou seja: a conta tem endereço, e não é o da Prefeitura. E, de lá para cá, ela segue sem ser paga.
O risco que está na pista agora
Enquanto a obra grande não vem, existe um risco imediato e concreto, e ele tem nome: óleo no asfalto.
Cem litros de diesel em pista molhada formam uma armadilha que quase não se enxerga. Diferente de um buraco, a mancha de óleo não aparece de longe, muito menos à noite, e só é percebida quando o veículo já perdeu a aderência. Para quem está de moto, isso costuma significar queda.
A limpeza foi feita pela concessionária, mas o asfalto pode seguir escorregadio por algum tempo depois de uma ocorrência dessas. A orientação para quem passa no trecho é reduzir a velocidade, evitar frenagem brusca e manter distância.
O que fazer se você vir óleo ou carga na pista
Avise. A Defesa Civil atende pelo telefone 199. Em caso de emergência, acione os Bombeiros pelo 193 ou o SAMU pelo 192. Se estiver em uma rodovia concedida, também dá para acionar o atendimento da concessionária pelos telefones indicados nas placas ao longo da via.
E, se puder fazer isso com segurança, reduza a velocidade e alerte quem vem atrás. Muitas vezes é esse aviso que evita o segundo acidente, aquele que acontece justamente porque o motorista seguinte não viu o que estava na pista.
Fonte: iFronteira, Polícia Rodoviária, Artesp e pesquisa CNT Rodovias