Gente Daqui: Thassiana cruzou o mundo, viveu o Japão e a Tailândia, e voltou com a arte do toque na bagagem
Parte da comunidade nipônica da cidade, a massoterapeuta Thassiana Harumi morou no Japão, estudou a massagem tradicional tailandesa na Tailândia e o Shiatsu no Japão. Hoje atende em Londrina e volta sempre para Machado por causa da mãe.
Nesta edição da coluna Gente Daqui, a gente conversou com Thassiana Harumi, massoterapeuta de Álvares Machado e parte da nossa comunidade nipônica. Filha dessa herança japonesa que é tão viva na cidade, ela morou no Japão, foi até a Tailândia estudar a massagem tradicional na origem, a Nuad Thai, e ainda fez um curso de Shiatsu em terras japonesas. Hoje atende em Londrina e volta sempre para Machado por causa da mãe. Nesta entrevista, ela conta como é levar o mundo na bagagem, o que aprendeu com o toque e por que, depois de tanto rodar, foi aqui que ela deixou o coração.
Você é da comunidade nipônica de Machado, uma herança forte e viva aqui. Como foi crescer dentro dessa cultura na nossa cidade?
Para mim, sempre foi motivo de muito orgulho ter descendência japonesa e carregar nas minhas raízes uma cultura tão rica e forte. O fato de Machado ter uma comunidade com muitos descendentes japoneses também contribui para fortalecer as nossas raízes e nos ajuda a valorizar e compreender melhor as nossas origens. Temos diversas festas e eventos na região que celebram a imigração japonesa e mantêm essa cultura viva. Esse amor e essa conexão com as minhas raízes despertaram em mim ainda mais vontade de conhecer melhor o Japão e vivenciar de perto esse outro lado do mundo que, de certa forma, também faz parte de quem eu sou.
Aí veio o Japão de verdade. O que mudou quando você deixou de ver o Japão pela memória da família e passou a viver ele no dia a dia?
Eu já havia morado no Japão antes. Passei nove anos lá e, de certa forma, cresci no Japão. Mas as lembranças que eu tinha eram memórias de criança. Então, voltar depois de mais de dez anos, agora com uma mente mais adulta e uma percepção diferente do mundo, foi como conhecer novamente um lugar que eu achava que já conhecia. Eu sempre tive muito respeito e carinho pela origem dos meus antepassados e por toda a história que existe por trás da minha descendência. Mas foi justamente vivendo novamente no Japão que descobri algo muito importante sobre mim: eu não posso negar que o Brasil tem totalmente o meu coração. Foi lá que percebi o quanto também sou ligada ao Brasil e o quanto ele faz parte da minha identidade. Afinal, eu sou brasileira! E o sentimento de “é daqui que eu venho” aconteceu muito mais quando comecei a viajar pelo Japão do que no cotidiano de trabalho. Conhecer diferentes lugares e entender como aquela cultura foi construída ao longo dos séculos despertava em mim uma sensação muito forte de conexão. Era como se, através dessas viagens e dessas histórias, eu conseguisse enxergar melhor de onde vieram as minhas raízes. Não como se aquele fosse o meu único lugar, mas como o reconhecimento de uma parte importante da minha história. Voltar adulta me fez perceber que posso amar e respeitar profundamente as minhas raízes japonesas sem deixar de sentir que o Brasil é a minha casa.
E da tradição japonesa você foi parar na Tailândia, atrás da massagem. Como surgiu esse chamado?
Desde que me formei, há cerca de dez anos, e comecei a atuar na área de massoterapia e spa, eu já tinha vontade de me especializar em outro país. Coloquei na cabeça que, se fosse fazer isso, teria que ser em algum país oriental, justamente pela riqueza e pela tradição que essas culturas têm nas terapias corporais. Na época em que eu estava morando no Japão, descobri profissionais que levavam pessoas que moravam lá para estudar na Tailândia. Como o Japão estava ali pertinho, surgiu a oportunidade e eu aproveitei. Foi uma daquelas situações em que uma vontade antiga encontra uma oportunidade no momento certo. E, além da experiência na Tailândia, também consegui realizar outro sonho que eu tinha: fazer um curso de Shiatsu no próprio Japão. Então, de certa forma, essa trajetória acabou unindo duas coisas que sempre despertaram muito o meu interesse: as minhas raízes e a minha paixão pela massoterapia.
Me leva pra Tailândia: como foi aprender a massagem lá, na origem dela?
A Tailândia respira massagem! Por onde você passa, ela está presente. Não é algo restrito às escolas ou aos espaços de atendimento; faz parte da cultura e do cotidiano. Tanto que a massagem tradicional tailandesa, conhecida oficialmente como Nuad Thai, foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Para mim, foi muito especial vivenciar isso de perto. Eu olhava os meus professores, ou melhor, os meus mestres, aplicando a técnica com tanta leveza, precisão e naturalidade, e ficava maravilhada. Você percebe que existe muito mais por trás dos movimentos do que simplesmente aprender uma sequência de técnicas. Estudar a massagem enquanto você está imerso naquela cultura, respirando aquilo no dia a dia, faz toda a diferença. Você não aprende apenas com as mãos; aprende observando, sentindo e entendendo um pouco da filosofia e da maneira como eles enxergam o corpo. Acho que algumas coisas só fazem sentido quando você tem a oportunidade de aprendê-las no lugar onde nasceram.

A massagem tailandesa tem uma filosofia por trás. O que dela mudou o jeito que você enxerga o corpo e a vida?
Acho que o que mais mudou para mim foi a maneira de enxergar o corpo como um todo. As técnicas orientais trabalham muito com os chamados canais de energia e trazem uma percepção diferente da relação entre corpo, respiração, equilíbrio e bem-estar. No meu trabalho, isso fez com que eu passasse a olhar muito mais para a pessoa do que simplesmente para a técnica que estou aplicando. A técnica é importante, claro, mas o toque também precisa ser consciente e respeitar aquilo que o corpo está dizendo. E acho que isso acaba indo para a própria vida também. A gente vive muito no automático e, às vezes, só percebe o quanto está tenso quando o corpo começa a reclamar. Aprendi a prestar mais atenção nesses sinais, tanto em mim quanto nas pessoas que atendo.
Você viveu duas culturas orientais bem diferentes por dentro, a japonesa e a tailandesa. O que cada uma te deu?
A cultura japonesa me ensinou muito através do “gambate”, essa ideia de perseverar, se esforçar e não desistir diante das dificuldades. É algo que admiro muito e que carrego comigo. Já a Tailândia me chamou a atenção pela alegria e pela leveza das pessoas. Embora eu tenha amado conhecer o país, não fiquei tempo suficiente para conhecer a cultura tailandesa a fundo. Foi mais uma experiência de contato, que despertou a minha curiosidade e me deixou com vontade de conhecer ainda mais. Acho que as duas culturas acabam conversando em mim de maneiras diferentes: o Japão representa muito das minhas raízes e da minha identidade, enquanto a Tailândia foi uma experiência que me abriu para conhecer e admirar uma outra cultura do outro lado do mundo.

Hoje você atende em Londrina, mas volta sempre pra Machado por causa da sua mãe. Como é trazer uma técnica que você foi buscar do outro lado do planeta?
Ultimamente eu não tenho atendido mais em Machado, porque o tempo que tenho na cidade acabou ficando bem curto. Quando venho para cá, tenho preferido aproveitar esse tempo com a minha mãe, que é algo muito importante para mim. Mas, mesmo não atendendo mais aqui atualmente, poder trazer uma técnica que fui buscar do outro lado do planeta é, sem dúvida, um sonho realizado. Ter tido a oportunidade de estudar fora e conquistar um certificado de outro país é algo que me deixa muito orgulhosa. É uma experiência que representa muito para mim, tanto profissionalmente quanto pessoalmente.
Quem se deita para uma massagem sua recebe, sem saber, um pedaço do Japão, da Tailândia, de tudo que você viveu. Você sente que entrega isso junto com o toque?
Eu sempre digo que o que eu faço é realmente o que eu amo, então, para mim, não parece trabalho. Atender é muito gratificante. Ver que posso ajudar uma pessoa de alguma forma é algo indescritível. A minha técnica reúne um pouco de tudo de mais especial que aprendi ao longo da minha vida e da minha trajetória profissional: desde a faculdade, a pós em acupuntura, a minha experiência em spa e todos os cursos que fiz, inclusive os que tive a oportunidade de fazer fora do Brasil. E acho que o toque é algo muito especial. Nós somos seres que precisamos ser tocados, e muitas vezes uma massagem vai muito além de simplesmente trabalhar o corpo. É uma troca, é um cuidado. Então, de certa forma, tudo o que vivi acaba estando ali também, junto com o meu toque.
Você é uma mulher de Machado que foi longe e voltou trazendo mundo na bagagem. O que você vê hoje que talvez não enxergasse antes de sair?
Vou dizer uma coisa que eu falo para todo mundo. Não vou falar exatamente sobre a cidade, mas sobre o nosso país. Como eu cresci no Japão, quando voltei para o Brasil eu acabava idolatrando muito o Japão e achava que tudo aqui era pior. Só que, depois de morar lá de novo, comecei a enxergar o Brasil de outra forma e a dar muito mais valor para as coisas boas que temos aqui. Nós somos um povo muito feliz e receptivo. Temos esse jeito de aproveitar as coisas, de estar perto das pessoas, de ter sempre um motivo para comemorar e, claro, fazer um churrasquinho. Tanto que, nos meus últimos meses no Japão, eu só queria escutar as minhas músicas brasileiras, comer comida brasileira e respirar o Brasil. Acho que foi aí que percebi o quanto eu sentia falta daqui e o quanto, na verdade, eu amo o meu país.
Para fechar: o que você diz para aquela pessoa daqui que tem uma raiz cultural forte, sonha em buscar algo lá fora, mas trava de medo?
A vida é muito curta para deixar que o medo te prive daquilo que realmente pode te fazer feliz!