Gente Daqui: Madu Suguimoto largou a arquitetura pela cerâmica e já ensinou o barro a mais de 200 alunos
Formada em arquitetura, a ceramista criou sua marca autoral e conduz o Ateliê Katú. Nesta entrevista, fala do que sente com as mãos na argila e da peça que mudou tudo.
Nesta edição da coluna Gente Daqui, a gente conversou com Madu Suguimoto, ceramista de Álvares Machado. Formada em arquitetura, ela trocou a prancheta pelo torno, criou sua marca de peças autorais e conduz o Ateliê Katú, onde já compartilhou a arte milenar do barro com mais de 200 alunos. Nesta entrevista, ela fala sobre o que sente com as mãos na argila, sobre viver de cerâmica no interior e sobre a peça que mudou tudo.
Como a cerâmica entrou na sua vida? Foi paixão à primeira vista ou foi te pegando aos poucos?
A cerâmica entrou na minha vida no início de um percurso de autoconhecimento e de busca daquilo que preenche minha alma. Quando criança, amava brincar com barro e água. Tive contato com a arte desde cedo, mas em outros formatos — aulas de música e de dança. Me formei em arquitetura, mas depois de alguns anos na profissão percebi que o mercado de trabalho na área não era exatamente o que eu esperava e que eu precisava buscar meu sustento exercendo minha criatividade de outra maneira. Passei pela fotografia, desenho, mas ainda sentia falta da proximidade com a natureza. Fui então para o paisagismo, mas só me encontrei mesmo quando coloquei a mão na terra e pude me expressar através dela. Hoje tenho minha marca de peças autorais que tem meu nome, Madu Suguimoto, e conduzo o Ateliê Katú, um espaço de ensino dessa arte milenar onde compartilho do meu encanto com a cerâmica através das aulas e oficinas.
O que você sente quando está ali com a mão na argila? É trabalho, é terapia, é os dois?
Com certeza é uma terapia, por muitos motivos. E felizmente hoje posso dizer que é também meu trabalho. Então sim, é os dois! Quando estou a sós com a argila, experimento aquilo que chamam de atenção plena na meditação. Fico totalmente focada no que estou fazendo, me desligo dos problemas do cotidiano e das preocupações, além de sentir uma sensação única quando toco o barro — é como se algo dentro de mim acendesse como uma luz, é difícil de explicar.
Como é viver de cerâmica numa cidade do tamanho de Álvares Machado? Tem público, tem quem valorize?
Confesso que tem sido melhor do que eu esperava. Felizmente as pessoas estão cada vez mais reconhecendo o valor do trabalho artesanal, que é transformado por nossas mãos desde a matéria-prima até a obra final. As aulas têm sido um ótimo meio de propagação dessa valorização e reconhecimento do trabalho manual, da importância do contato com a arte e a natureza na nossa vida. Sobre as vendas, hoje com a internet é possível alcançar e vender para pessoas do mundo todo, então estar numa cidade pequena no interior de São Paulo não me prejudica tanto nesse sentido.
Tem uma peça que você fez que é sua preferida, ou que te marcou por algum motivo?
Tem sim. É um autorretrato em escultura. Foi a primeira peça que fiz em cerâmica com quase 100% de autonomia — tive o auxílio e supervisão do meu primeiro professor de cerâmica, em 2019. Eu tinha um outro emprego na época, então ela levou meses para ficar pronta. Eu tinha algumas fotos de frente e perfil, um espelho e algumas ferramentas improvisadas com arame. Foi um processo bem mais profundo do que pode parecer. Hoje ela fica aqui no ateliê e, por conta dela, sou apaixonada por escultura.

Como é dar aula? O que mais te surpreende nas pessoas que chegam querendo aprender?
É desafiador — por eu ser uma pessoa introspectiva, perfeccionista e que se cobra muito — e gratificante ao mesmo tempo. Eu acredito que o conhecimento deve ser compartilhado, e poder compartilhar o pouco que aprendi e aprendo, junto com meu encanto pela cerâmica, ao mesmo tempo que resgatamos essa atividade ancestral, manual e terapêutica, me mostrou que é assim que eu me realizo. Hoje, depois de ter compartilhado a cerâmica com mais de 200 alunos (entre aulas e oficinas em São Paulo, Presidente Prudente e Álvares Machado), consigo notar que a maioria deles vem trabalhar ou curar alguma coisa através do barro — e eu me incluo neste pacote. É incrível poder acompanhar os efeitos da cerâmica em cada pessoa. Já ouvi alguns relatos que me emocionaram.
Tem algo que as pessoas não imaginam sobre esse trabalho? Alguma parte difícil que fica escondida?
A cerâmica é uma atividade tão antiga e cultural que há muitas coisas sobre esse trabalho que nem eu mesma imagino. Muito antes da escrita, povos de diferentes lugares do mundo já moldavam o barro e queimavam no fogo, desenvolvendo diferentes técnicas para obter objetos para o uso cotidiano, ritualísticos e de expressão artística. Cada cultura tem uma história, uma relação e desenvolveu técnicas e estéticas únicas com a cerâmica — poder estudar e descobrir coisas nesse sentido é fascinante para mim. Eu diria que não tem parte difícil, a não ser ter que lidar com nossa impaciência e imediatismo; o resto é só questão de estudo, técnica e prática. Já trabalhoso, é sim. Uma peça, considerando o meu modelo de trabalho com a cerâmica de alta temperatura, passa pela minha mão de 7 a 10 vezes, e também por 2 queimas — uma delas a mais de 1200°. São muitos processos até ficar pronta e cada um deles apresenta riscos de comprometimento, avarias e perda da peça. Quando as pessoas têm a oportunidade de ver de perto e entender a complexidade, automaticamente valorizam e apreciam mais o trabalho.
O que a cerâmica te ensinou que você leva para a vida fora do ateliê?
Poderia ficar horas aqui respondendo essa. A cerâmica me ensinou e ainda me ensina todos os dias sobre muitas coisas. Acho que eu poderia resumir que ela me ensinou a, primeiramente, seguir o caminho do coração independentemente do mundo contra; me ensinou sobre o respeito ao tempo de cada etapa e de cada coisa; sobre o desapego das ideias e idealizações, já que as coisas podem fugir do nosso controle ou ser diferentes do que imaginamos — e tá tudo bem, o que importa é o aprendizado e a beleza no caminho.
