Gente Daqui: João Zaupa, o pesquisador que estuda satélites e leva a ciência da nossa região para o mundo
Nascido em Álvares Machado e formado na UNESP de Presidente Prudente, o doutorando João Zaupa pesquisa o posicionamento preciso por satélite (GNSS) e já apresentou seu trabalho no Chile e na Itália.
Nesta edição da coluna Gente Daqui, a gente conversou com João Zaupa, nascido em Álvares Machado, formado na UNESP de Presidente Prudente e hoje doutorando com bolsa da FAPESP. Ele pesquisa o posicionamento preciso por satélite — a tecnologia por trás do GPS, do trator que planta na roça e do drone que mapeia a lavoura — e já apresentou seu trabalho no Chile e na Itália. Seu doutorado, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Cartográficas (PPGCC) da UNESP, busca reduzir o tempo de convergência do Posicionamento por Ponto Preciso (PPP) multi-GNSS; em bom português, fazer o cálculo da posição por satélite ficar preciso mais rápido e mais confiável. É, no melhor sentido, um caso de “exportação de inteligência machadense”: gente que nasce no interior e leva a ciência da nossa região para o mundo.
Quando a ciência deixou de ser matéria de escola e virou uma coisa que você quis pra vida? E você se considera um cientista?
A ciência entrou na minha vida como formação complementar, logo no segundo ano da graduação em Engenharia Cartográfica e de Agrimensura pela FCT/UNESP, em 2019. Comecei a entender como funciona a navegação por satélites, e depois vieram as bolsas de iniciação científica, primeiro do CNPq e depois da FAPESP, que me acompanhou por boa parte da graduação. Foi só no quinto ano que percebi que era isso que eu queria para a vida: os aspectos geométricos e geofísicos do posicionamento por satélite viraram um prazer no meu cotidiano. A pessoa responsável pela minha aproximação com a ciência é minha orientadora, a quem tanto respeito. E quem me tornou resiliente aos desafios foi minha mãe. Sim, me considero um cientista, pesquisador, aluno de doutorado.
De Machado para um doutorado com bolsa da FAPESP é um caminho que muita gente daqui nem sabe que existe. Como foi essa estrada?
Infelizmente a carreira científica ainda é impopular na nossa sociedade. No estado de São Paulo, apenas 25% da população com 25 anos ou mais concluiu o ensino superior. Quando vou divulgar o curso em escolas, fico assustado: boa parte dos alunos da rede pública não sabe que pode ingressar numa faculdade pública, gratuita e de qualidade, como a UNESP. A gente, pesquisadores e professores, também falha nessa comunicação, mas essa informação precisa ser propagada. Estudar numa universidade pública e ainda receber uma bolsa foi o que me permitiu continuar. Isso, mais os conselhos da dona Maria Luisa, me fez seguir no mestrado e no doutorado. Hoje tenho certeza: esse é o mundo que quero para mim.
Explica pra gente sem medo de simplificar: o que você pesquisa? E onde isso encosta na vida de quem mora aqui?
Sem medo de simplificar: o que eu pesquiso é como saber, com a maior precisão possível, onde alguma coisa está usando sinais de satélites. Quando a gente fala em GPS, pensa naquele pontinho azul do celular, mas o GPS é só um dos sistemas que existem — hoje trabalhamos com vários, como GPS, Galileo, GLONASS e BeiDou, sendo estes classificados como GNSS. E isso está muito mais perto da nossa realidade do que parece: está no celular, mas também no trator que segue uma trajetória no campo, no drone que mapeia uma lavoura, no levantamento de uma propriedade e em diversas atividades de agricultura de precisão. Numa região agrícola como a nossa, melhorar esse posicionamento significa mapear a lavoura com mais detalhe e usar máquinas e drones com muito mais precisão.
Só que existe um problema interessante: o satélite está a cerca de 20 mil km de distância, e o sinal precisa atravessar toda a atmosfera até chegar ao receptor. É aí que entra boa parte da minha pesquisa — desenvolver formas matemáticas de identificar o quanto podemos confiar em cada sinal recebido, para que o posicionamento continue preciso mesmo quando o sinal não chega em condições ideais. E o Brasil é quase um laboratório natural: estamos numa região do planeta muito influenciada pela ionosfera, onde podem surgir as chamadas bolhas de plasma e a cintilação, que distorcem o sinal — é quase como enxergar uma imagem no fundo de uma piscina com a água se mexendo. É por isso que, às vezes, você pede o Uber de noite e ele chega na rua errada. Some a isso o clima espacial (explosões solares e tempestades geomagnéticas) e a Anomalia Magnética do Atlântico Sul, e dá para entender por que estudar posicionamento por aqui é tão desafiador — e importante.

E qual é a parte que faz seu olho brilhar quando você fala dela?
Sem dúvidas, o efeito da cintilação do sinal na atmosfera ionizada. É a fonte de erro mais imprevisível dos sinais GNSS e uma ameaça para a navegação de veículos autônomos no Brasil. Conseguir mitigar esse efeito baratearia a navegação aérea e facilitaria a implementação de cidades inteligentes.
Você não só pesquisa, você divulga — traduz ciência para quem não é da área. Por que isso te importa?
Confesso que divulgar para o público leigo não é minha atividade favorita, mas é extremamente importante. Quanto mais entusiastas na ciência, maior a chance de uma nova descoberta. E, com o desenvolvimento científico, a gente contribui para a soberania do país e para uma vida melhor do cidadão em geral.
Você já apresentou seu trabalho fora — Chile, Itália. Como é mostrar a sua ciência lá fora? Como recebem um pesquisador brasileiro, do interior de São Paulo?
A melhor coisa dos eventos internacionais é o bate-papo no coffee-break: é ali que a gente cria redes e troca os avanços dos trabalhos pelo mundo. Não bate frio, não — é prazeroso receber um questionamento pertinente e ser desafiado numa “batalha” de ideias. Isso é progresso. A recepção varia de cultura para cultura, mas pesquisadores brasileiros, a meu ver, são muito bem recebidos. Por ora, sou peixe pequeno.
Tem a ideia de que ciência de ponta só se faz nos grandes centros. Ser de Machado já pesou como insegurança nesses espaços — ou virou orgulho?
Nada de insegurança, muito pelo contrário: virou orgulho. A ciência de ponta não depende de onde você nasceu, mas das oportunidades, da formação e da estrutura para produzir conhecimento. Nos grandes centros existe um investimento pesado e contínuo, com grupos enormes trabalhando anos num mesmo problema; no Brasil, muitas vezes o pesquisador faz um pouco de tudo — formula o problema, programa, processa os dados, analisa e escreve. Há mérito enorme nisso, mas também um limite. Ciência de ponta não tem CEP: o que ela precisa é de formação, oportunidade e investimento.
A nossa região, com a UNESP de Prudente, virou uma referência forte na sua área. Como é descobrir que o interior é um dos centros da ciência que você faz?
É muito significativo, porque mostra que o interior também pode ser protagonista na ciência. A UNESP de Presidente Prudente construiu uma tradição forte em Geodésia e GNSS, principalmente pelo Grupo de Estudos em Geodésia Espacial (GEGE) e, mais recentemente, pela atuação no INCT GNSS-NavAer. Para mim, é motivo de orgulho ver uma área tão tecnológica e estratégica ter no interior paulista um de seus polos de referência no Brasil.

Depois de rodar o mundo com a ciência, como você olha para Machado quando volta para casa?
Levo Machado comigo, sim — ela faz parte da minha história e da forma como vejo o mundo. Voltar faz a gente enxergar a cidade com outros olhos: você percebe melhor o valor das pessoas, da formação que recebeu e de tudo o que ainda pode ser construído aqui. Dá vontade de ver mais oportunidades, para que quem nasce no interior não precise acreditar que tem de sair daqui para sonhar grande.
Pra fechar: e aquele menino ou aquela menina daqui que acha que doutorado e mundo lá fora “não é pra gente de Machado” — o que você diz?
Eu diria para tentar. A universidade vai muito além da sala de aula: muda a forma como a gente enxerga o mundo. Você pode participar de pesquisa, empresa júnior, atlética, projetos de extensão, estágios e intercâmbios, e conhecer realidades completamente diferentes. Hoje existem auxílios de permanência que ajudam muitos estudantes a continuar no curso, e em muitos cursos a concorrência está bem menor do que já foi. Então, para quem é de Machado e tem vontade de estudar: faça o vestibular, conheça as possibilidades e se permita tentar. A universidade pode abrir portas profissionais, mas principalmente pode transformar você como pessoa.